Enquanto a rede pública de saúde do Distrito Federal enfrenta atrasos no pagamento a fornecedores, falta de insumos, contratos sob tensão e unidades funcionando no limite, o Governo do DF resolveu anunciar — com pompa — a possível inclusão do Mounjaro, medicamento de alto custo e tecnologia de ponta, no protocolo do SUS.
O anúncio foi feito pela governadora em exercício, Celina Leão, durante a inauguração de um campo de futebol sintético em Sobradinho. O cenário, aliás, parece resumir bem as prioridades: bola rolando no gramado novo, enquanto a saúde patina nos bastidores.
Segundo Celina, o GDF estuda oferecer a tirzepatida para pacientes com obesidade mórbida. O discurso é bonito, quase impecável: fala-se em economia de cirurgias, prevenção de infartos, acesso à tecnologia e justiça social. Tudo muito moderno — no papel.
O problema é que, na vida real, hospitais convivem com fornecedores sem receber há meses, empresas ameaçando suspender entregas e gestores tentando manter o básico funcionando. Falta gaze, falta medicamento essencial, falta previsibilidade. Mas sobra anúncio.
A pergunta que ecoa nos corredores da saúde é simples e incômoda:
como garantir um tratamento de alto custo e uso contínuo se o GDF não consegue manter em dia nem os contratos básicos?
O governo afirma que “vários estados já adotaram protocolos semelhantes”. Verdade. Mas também é verdade que muitos desses estados primeiro organizaram o caixa, pagaram fornecedores e estruturaram a rede — antes de partir para políticas de vitrine.
Ninguém discute a importância de tratar a obesidade como questão de saúde pública. O que se questiona é o descompasso entre o discurso e a realidade. Em um sistema onde falta o essencial, anunciar o extraordinário soa menos como política pública e mais como marketing institucional.
No DF de hoje, a saúde vive um paradoxo curioso:
– fornecedores esperam pagamento;
– pacientes esperam atendimento;
– e o governo anuncia um medicamento que poucos estados conseguem bancar com segurança.
Talvez antes de investir na “tecnologia de ponta”, fosse prudente garantir o óbvio: contas em dia, contratos estáveis e hospitais funcionando sem improviso. Porque, no SUS, inovação sem base sólida costuma virar apenas mais uma promessa que não chega à ponta — nem na seringa, nem na farmácia.



