segunda-feira, março 16, 2026
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Entrega do Prêmio Marielle Franco reforça importância da luta por direitos humanos no DF 


Entrega do Prêmio Marielle Franco reforça importância da luta por direitos humanos no DF 

Em sua sétima edição, a premiação teve, entre os homenageados, representantes de povos de terreiro, de fanfarra feminista e de policiais LGBTI+ 

Às vésperas do aniversário de oito anos da morte de Marielle Franco, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Cidadania e Legislação Participativa da Câmara Legislativa do Distrito Federal realizou sessão solene de entrega da honraria que leva o nome da vereadora carioca. A solenidade aconteceu na noite da última sexta-feira (13), no plenário da Casa, e foi marcada por discursos e apresentações culturais de reafirmação de compromissos com a luta por direitos humanos e cidadania.  

“Esta é a sétima vez que nós nos reunimos, em sessão solene, em memória e em pedido de justiça para Marielle Franco, mas também para o seu legado nos ajudar a premiar pessoas e reconhecer legados tão importantes, aqui do Distrito Federal, para a defesa dos direitos humanos”, explanou o deputado Fábio Felix (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos e autor da resolução que instituiu o prêmio

“Uma das mulheres mais votadas da história do Rio de Janeiro, Marielle falou, na tribuna da Câmara Municipal, que não seria interrompida. O seu corpo físico foi interrompido da pior forma possível, mas ela não o foi do ponto de vista das suas pautas; e o nosso desafio é fortalecer quem, de alguma forma, floresce Marielle Franco todos os dias, defendendo a comunidade LGBT, os povos de terreiro, a educação, a cultura e as políticas públicas que alcançam as pessoas”, afirmou o distrital.

 

Premiação 

O Prêmio Marielle Franco de Direitos Humanos foi entregue, este ano, a um total de 13 pessoas e entidades, das seguintes categorias: organização da sociedade civil (4); ativista (2); arte e cultura (3); Academia (1); empresa (1); jornalismo (1), e especial (1).  

Saiba mais sobre as iniciativas homenageadas nesta edição. 

Organização da sociedade civil – Coletivo das Yás do DF e Entorno 

Fundado em 2019, o coletivo surgiu com a intenção de ritos de matriz africana para a Festa das Águas, celebrada em 2 de fevereiro. Desde então, o grupo se fortaleceu e se tornou uma das principais referências em questões relacionadas às tradições de terreiro. Composto por cerca de 40 membros, incluindo yalorixás, mães de santos, mametos e macotas, o coletivo representa o matriarcado cultural dos terreiros do Distrito Federal e entorno. Atualmente, participa da revitalização da Praça dos Orixás. 

“Em todos os terreiros do DF, existe uma Marielle; eles são tocados por milhares e muitas ‘marielles’, mulheres fortes, mulheres valentes”, destacou Mãe Baiana de Oyá, que integra o coletivo homenageado. A yalorixá abordou temas como preconceito religioso, questões fundiárias e os serviços prestados pelos terreiros. “A gente está onde o governo não consegue chegar; a gente lida todos os dias com mulheres que apanham, com mulheres corridas com seus filhos nas costas, com crianças sem um alimento”, apontou.  

Organização da sociedade civil – Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBTI+ 

A Renosp-LGBTI+ é uma associação civil sem fins lucrativos formada por agentes lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexo e de outras identidades que trabalham em instituições de segurança pública. Com sede em Brasília, a entidade congrega, hoje, mais de 150 integrantes em todas as regiões do Brasil. 

“Nós somos policiais e defensores de direitos humanos: essas são pautas que jamais podem se excluir, e essa é a defesa intransigente que a Renosp promove desde a sua fundação, em 2010”, explicou o presidente da associação, Anderson Cavichioli, esclarecendo que, além dos direitos das pessoas LGBT, a entidade atua também para assegurar os direitos das mulheres, das pessoas negras, das pessoas com deficiências e dos idosos dentro da segurança pública. “Nós trabalhamos, principalmente, na prevenção das violências, capacitando policiais para as pautas de direitos humanos”, observou. 

Organização da sociedade civil – Associação Brasileira do Pito do Pango (Abrapango) 

A Abrapango foi fundada em 2023, em Brasília, com o intuito de permitir acesso seguro e humanizado à cannabis medicinal. Entre as missões da organização, está acabar com o estigma associado à planta, para garantir que os pacientes possam ter acesso seguro, digno e continuado ao tratamento. A associação registra quase 5 mil associados. 

“A proibição da maconha no Brasil nunca foi sobre drogas, ela sempre foi sobre o controle de corpos, territórios e uma perseguição sistêmica das periferias e do povo preto. O pito do pango, a macanha, lhamba, fumo de negro: são tecnologias ancestrais de cura e resistência, pertencem ao povo preto e a ele devemos tantos saberes”, argumentou a diretora da Abrapango, Mônica Barcelos. “Este prêmio, para nós, é combustível para quebrarmos estigmas, rompermos ciclos históricos de violência e exclusão, e construirmos um Brasil justo e digno”, completou. 

Organização da sociedade civil – Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB do Distrito Federal 

Instância consultiva, a comissão passou a integrar, de forma permanente, a estrutura da OAB-DF em 2025. Sua atuação abrange, entre outras frentes, a promoção de atividades de formação e capacitação da advocacia em temas relacionados à diversidade, inclusão e enfrentamento à discriminação, bem como articulação institucional com órgãos públicos, entidades privadas e organizações da sociedade civil. A diretoria do colegiado deve ser composta por advogadas e advogados LGBTQ+ com conhecimento técnico da temática. 

“Este prêmio é da comissão, é da advocacia, mas, principalmente, é da sociedade civil organizada LGBTQ+, que me permite atuar, enquanto a OAB, ao seu lado na busca por uma realidade menos LGBTfóbica no nosso Distrito Federal”, disse o presidente da comissão, Gabriel Borba, defendendo a ocupação de espaços: “Ou a gente ocupa ou é invisibilizado”. 

Ativista – Professora Patrícia Ramiro 

A professora Patrícia Ramiro atua há 31 anos na rede pública de ensino do DF. Educadora, alfabetizadora e defensora da escola pública, sua trajetória profissional é marcada pela luta pelos direitos humanos. Atua no Programa de Alfabetização e Letramento no DF – Alfaletrando. 

“Eu acredito na formação continuada do professor, acredito em programas como o Alfaletrando, que forma professores alfabetizadores. E tenho muita garra, muita vontade de fazer diferença, mesmo finalizando a minha carreira”, disse a homenageada. “Acredito que a gente não faz justiça social sem educação pública democrática, laica e de qualidade para todos”, resumiu a professora. 

Ativista – Cynthia Ciarallo 

Psicóloga, mestre e doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), Cynthia Ciarallo atua, há mais de 20 anos, na docência e extensão universitária com interface Psicologia/Justiça, trabalhando com a comunidade as temáticas de  diversidade e direitos humanos. Atualmente, integra o Comitê Equidade da Raça, Gênero e Diversidade do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região e está à frente da Diversando – Consultoria e Educação em Equidade, focada em gestão de diversidade/inclusão, educação e psicologia insurgente. 

“Eu não quero comunidades terapêuticas transformando saúde em catequese, não quero que a Psicologia esteja voltada para adaptar as pessoas, não quero práticas psicoterápicas onde, na verdade, as pessoas estão fazendo catequese”, pregou a homenageada. E concluiu: “Nós temos muitas ações que devem ser mudadas e transformadas”. 

Arte e Cultura – Fanfarra Maluvidas 

“Maluvida” é uma gíria bastante comum no Nordeste brasileiro para se referir a uma pessoa que não escuta os outros, que é desobediente e inquieta. Foi de uma inquietação que surgiu, em 2016, a fanfarra Maluvidas, integrada por mulheres cisgêneras, transgêneras, travestis e pessoas não binárias. No repertório, músicas compostas, escritas ou consagradas por mulheres. 

Representando o grupo, Juliane Pereira lembrou que a fanfarra Maluvidas foi criada a partir da insatisfação de musicistas que antes integravam grupos mistos, nos quais “homens se acham donos da rua e da arte”. “Essas mulheres não aceitavam isso e decidiram dar uma guinada e criar seu próprio espaço”, contou. “Cada Malu que entra tem seus próprios motivos para fazer parte do coletivo, mas no cerne existe a busca por um espaço seguro”, arrematou. 

Arte e Cultura – Maracatu do Boiadeiro Boi Brilhante 

O grupo nasceu em 2017, no Paranoá, fundindo música e devoção ao sagrado de matriz africana. “O Maracatu surge da vontade, da necessidade e da ordem de uma entidade, de um boiadeiro que pega a minha cabeça há mais de 20 anos. Ele pediu que o nosso trabalho não ficasse somente dentro do terreiro”, explicou o pai de santo Adriano Fiúza (Tatetu Kanamburá). 

“Este prêmio não é só do Maracatu, mas também é do Inclua, que é o Instituto Educacional e Cultural Lua Branca, que é composto por vários outros grupos, como o que discute pessoas trans nos terreiros”, acrescentou. 

Arte e Cultura – Bloco Rebu 

O bloco de carnaval Rebu nasceu em Brasília, em 2018, como uma iniciativa coletiva de mulheres LBTS comprometidas com a ocupação cultural e política da cidade.  

“O Rebu hoje é uma plataforma de cultura que atua, sobretudo, na rua, pelo direito à cidade, pelo direito desses corpos que estão sendo violentados cotidianamente. Quando a gente coloca um bloco na rua é sobre política, é sobre não deixar interromper nossa alegria, quando querem nos silenciar e nos adoecer”, defendeu Dayse Hansa. “A gente é esse povo que se importa, que se indigna e, como disse a própria Marielle: não seremos interrompidos e interrompidas. E não deixaremos interromper as vidas de pessoas LGBTs, de pessoas pretas e pessoas periféricas. Essa é a nossa defesa”, concluiu. 

Academia – Andrea Gallassi 

Professora associada da Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas, Andrea Gallassi acumula vasta experiência em pesquisa com pessoas que usam drogas em contextos de vulnerabilidades. Em 2025, recebeu prêmio de Direitos Humanos da UnB por uma pesquisa com a população em situação de rua sobre drogas, transtornos mentais e HIV. 

“Marielle Franco nunca se ausentou em colocar a pauta das pessoas que usam drogas como uma das suas lutas. Então, para mim, que trabalho com pessoas vulnerabilizadas, com pessoas em contextos vulneráveis e que fazem uso de drogas, me muito honrada e muito acolhida neste espaço”, disse em agradecimento ao prêmio da CLDF. 

Empresa – Birosca do Conic 

A casa norturna foi fundada em 2015 com o propósito de criar um espaço de diversão e diversidade no centro de Brasília. Com o tempo, consolidou-se como um dos principais espaços da cultura queer.  

“A Birosca não é só um empreendimento que visa ao lucro, ela tem um propósito que eu acho basilar: a promoção do direito à cidade e à cultura”, apontou Igor Albuquerque, um dos fundadores do estabelecimento. Ele explica que o Conic foi escolhido para abrigar o negócio por ser de fácil acesso, por meio do transporte público: “Isso faz com que o Conic tenha uma dimensão democrática muito maior que qualquer outro local de eventos na cidade. E foi pensando nisso, inclusive, que optamos por ter um modelo de entrada com retirada de cortesias até meia-noite. Isso possibilitou a criação de um público muito diverso e único aqui em Brasília, que mescla o Plano Piloto com a periferia”. 

Jornalismo – Ana Dubeux e equipe de reportagem do Correio Braziliense (ciclo de matérias sobre feminicídio) 

Formada em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, Ana Dubeux construiu sólida carreira em Brasília, tornando-se referência na área. É diretora de redação do Correio Braziliense, que tem publicado uma série de reportagens e realizado vários debates sobre violência contra a mulher. 

Falando em nome do Correio Braziliense, a coordenadora da Editoria de Cidades, Adriana Bernardes, avaliou que o papel do veículo de comunicação vai além das páginas do jornal: “Nós fazemos com que essa atuação ganhe vida nos palcos dos nossos fóruns e seminários, onde transformamos as notícias em ação direta. Entendemos que o combate ao feminicídio, por exemplo, exige muito mais do que manchetes de impacto, exige contar as histórias, oferecer serviço de onde as mulheres conseguem buscar ajuda, onde elas conseguem ter o amparo necessário para romper círculos de violência”. 

Especial – Érika Kokay (PT/DF) 

“A trajetória da Érica Kokay não começou em gabinetes, mas no chão das agências bancárias, na organização sindical e nas ruas, onde o destino de Brasília sempre foi decidido. Ela nos ensinou que a política só faz sentido se estiver lado a lado dos trabalhadores, das mulheres, da população LGBTQIA+, dos povos tradicionais e de todos aqueles que o sistema tenta invisibilizar”. Assim o deputado Fábio Felix apresentou a homenageada especial do 7º Prêmio Marielle Franco: a deputada federal e ex-distrital Érika Kokay (PT/DF). 

“É muito bom levar no peito, na alma e nas mãos este prêmio de direitos humanos, desta comissão que tem uma atuação tão intensa e que dialoga com uma cidade muitas vezes invisibilizada”, agradeceu a parlamentar. “Marielle carregava muitos sonhos e muita responsabilidade, porque vinha com mais de 40 mil votos, e ela não foi interrompida nem mesmo com a execução que sofreu junto com Anderson”, apontou Kokay. 



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