A governadora corta.
Corta 25%.
Corta contratos.
Corta salários.
Corta o futuro parcelado.
Economia de bisturi com mão de açougue.
Celina Mão de Tesoura.
Não a de Johnny Depp.
Outra. Tropical. Fiscal. Eleitoral.
Aqui o corte não é estético.
É orçamentário. Narrativo. Existencial.
Corta o aniversário da cidade.
Corta a festa — para pagar a conta da festa anterior.
Brasília faz aniversário.
Ganha contingenciamento.
Parabéns.
Corta também o passado.
Sete anos ao lado de Ibaneis Rocha.
Corta o vínculo.
Corta a memória.
Corta a biografia em parcelas convenientes.
Mas no sábado:
carne, cerveja, abraço.
Gratidão.
Corta durante a semana.
Abraça no fim de semana.
Tesoura de segunda a sexta.
Confraternização no sábado.
Corta aliados.
Desalinha partido.
Arranha pontes.
Testa limites com Flávio Bolsonaro.
Corta a base onde pisa.
Equilíbrio por subtração.
Corta a lógica.
Anuncia solução para o banco.
O mercado responde: Himalaia de dúvida.
Promessa vertical.
Viabilidade horizontal.
Nenhuma das duas se encontra.
Corta a crítica.
É fake news.
É perseguição.
É narrativa.
Quando tudo é ataque, nada é erro.
A tesoura também edita a realidade.
Corta o tempo.
“Vamos ganhar antes da campanha.”
Antes.
Sempre antes.
O processo é um detalhe.
O resultado, uma intenção.
E por fim:
corta a si mesma.
A governadora que se separa da própria história.
Que governa contra o próprio governo.
Que corrige o que ajudou a construir.
Autofagia sem digestão.
Nem antropofagia à la Oswald de Andrade.
Aqui não se devora para reinventar.
Corta-se para esquecer.
Celina Mão de Tesoura.
No lugar das mãos, cortes.
No lugar do projeto, contenção.
No lugar da continuidade, ruptura seletiva.
E o Distrito Federal?
Assiste.
Em fatias.



