Em um episódio que expõe as rachaduras profundas no governo da governadora Celina Leão (PP), a presidente do PP Mulheres no Distrito Federal, Natália Reis, foi vaiada durante o lançamento da pré-candidatura de Celina, realizado no último sábado (4), em Santa Maria. O fato ganha contornos ainda mais graves por ter partido, segundo relatos, de um grupo de mulheres, justamente o público que o governo tenta cortejar com discursos de empoderamento feminino.
Natália Reis, uma das principais lideranças femininas do partido da governadora, reagiu publicamente ao episódio nas redes sociais. Em vídeo, ela confessou que o que mais a entristeceu “não foi a pressão das vaias, mas foi saber que elas vieram justamente de mulheres”. A dirigente defendeu a união entre mulheres na política, questionando: “Como queremos conquistar mais espaço para as mulheres na política se ainda tentamos silenciar outras mulheres quando elas pegam o microfone?” e enfatizando que “o verdadeiro protagonismo feminino não acontece quando uma mulher tenta diminuir a outra”.
O incidente revela uma contradição incômoda para o Palácio do Buriti. Celina Leão, que assumiu o governo do DF em março de 2026 e se apresenta como a “terceira governadora mulher do Brasil”, lidera um governo que, na prática, parece distante das demandas e do apoio real do eleitorado feminino. Em vez de celebrar conquistas, o lançamento da sua pré-candidatura expôs rejeição interna à própria base aliada.
Pesquisas recentes reforçam o quadro de desgaste. Levantamentos mostram aprovação da gestão em torno de 43%, com desaprovação próxima (cerca de 40%), e um alto índice de indecisos (60% em alguns cenários). Celina também aparece com índices elevados de rejeição em vários levantamentos, figurando entre as piores avaliações em rankings regionais.
Um cientista político que preferiu anonimato afirmou que Celina parece estar cercada de tanta gente, que não consegue enxergar o próprio governo.
O episódio das vaias não é isolado. Relatos de bastidores apontam que as manifestações partiram de mulheres ligadas a outros grupos políticos, incluindo bandeiras rosas associadas a outras lideranças. Natália ainda precisou defender o uso da cor rosa, símbolo de seus projetos para mulheres, contra críticas. O fato de uma figura central do “PP Mulheres” precisar fazer um apelo público por união expõe a fragilidade da narrativa de “governo amigo das mulheres”.
Enquanto o governo anuncia iniciativas como rede de amparo a mães atípicas e planos contra violência, a rejeição expressa por parte do público feminino em um evento oficial da base governista sugere que as ações não estão convertendo em apoio real. Mulheres, que representam a maioria do eleitorado, parecem estar enviando um recado claro: discursos de empoderamento não substituem resultados concretos e conexão genuína.
O governo Celina Leão, que herdou desafios financeiros e administrativos, agora enfrenta também uma crise de legitimidade junto às mulheres — grupo que deveria ser seu maior ativo. Vaias vindas de quem o governo diz representar são o sintoma mais visível de um problema maior: falta de credibilidade e apoio popular. Resta saber se a “Leoa” conseguirá reverter esse cenário antes das urnas de 2026 ou se o descontentamento continuará ecoando.



