Há relatos que se contam com a voz firme. Outros só podem ser contados com o coração na garganta. Foi assim que Rogério Ulysses (Avante) revisitou, emocionado, os quarenta e cinco anos que o ligam a São Sebastião, uma cidade que ele viu nascer, literalmente, do chão de terra batida.
Nos olhos marejados, dava para ver o peso de cada palavra. Porque quando Rogério fala de São Sebastião, ele não fala de um lugar qualquer. Fala da própria vida.
Uma agrovila, uma família, um sonho
Ele tinha poucos anos quando chegou ali com a mãe e a avó, que era cadeirante. Não havia asfalto. Não havia luz. Não havia, sequer, uma cidade: era uma agrovila, um punhado de casas e promessas em meio ao cerrado do Distrito Federal. A água vinha do chafariz, depois da cisterna. O banho era no Córrego da Maria do Grilo, e Rogério foi aluno da Cerâmica da Benção, num tempo em que sobreviver já era, por si só, uma conquista diária.
Ficou marcada na memória do menino a ameaça de despejo: o Sivi-solo, antigo órgão de fiscalização, chegou a colocar em risco a casa onde ele vivia com a família. Um susto que uma criança não deveria conhecer, mas que, décadas depois, ainda ecoa como lembrete de quanto custou construir um lar naquela terra.
A frase da mãe que virou destino
Em meio a tantas dificuldades, uma voz nunca vacilou: a de sua mãe. “Estuda, meu filho. Só tem um jeito de as coisas melhorarem, que é através da educação.” A frase, simples e repetida em tantas casas humildes do Brasil, se tornou a bússola de uma vida inteira. Foi por acreditar nela que Rogério se tornou professor, e é por acreditar nela, ainda hoje, que segue defendendo a educação como o caminho mais curto para transformar realidades.
Da sala de aula ao mandato, e de volta à luta
O menino que tomava banho de córrego se tornou o professor que se tornou deputado. Um caminho de trabalho duro em nome da cidade que o formou. Mas a trajetória também atravessou tempos difíceis, até a absolvição por unanimidade reafirmar o que ele sempre soube: que sua história, mesmo abalada, continuava de pé.
E é de pé que Rogério Ulysses se apresenta agora, com fé, com gratidão à mãe que teve a coragem de recomeçar a vida em São Sebastião, e com a convicção de que a cidade e ele têm, juntos, um novo capítulo para escrever.
“Recomeçar a caminhada”
“Hoje eu tô muito feliz por poder recomeçar essa caminhada com fé em Deus”, disse, a voz embargada. “Uma história de dificuldades, mas uma história de vitórias também.”
Faltam poucos dias. E Rogério Ulysses já deixou claro qual é o compromisso: trabalhar, e trabalhar muito, para que São Sebastião tenha, enfim, a cidade melhor que seu povo sempre mereceu.
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