Milhares de empregos na economia criativa ameaçados, centenas de profissionais da cultura popular sem perspectiva de renda, figurinos já pagos e costureiras aguardando por apresentações que não acontecerão. É o cenário denunciado pela União Junina do Distrito Federal e Entorno diante da ausência total do Distrito Junino 2026, configurando, segundo o movimento, o descumprimento do Decreto Distrital nº 42.315/2021.
O repúdio foi formalizado em nota pública nesta quinta-feira (21). A entidade acusa a gestão estadual de abandonar uma política pública consolidada que, nos últimos anos, se tornou a principal fonte de financiamento das quadrilhas juninas.
Dependência criada e abandono repentino
Hamilton Tatu, presidente nacional do Movimento Junino, fundador da União Junina e líder da quadrilha Pau Melado,oito vezes campeã brasileira, explica a gravidade da situação:
> “Cláudio Abrantes fez um decreto que viciou as quadrilhas juninas, tornando-as dependentes do governo do Distrito Federal. A partir de 2023, o governo passou a bancar as etapas das quadrilhas e o cachê artístico. Isso aconteceu em 2023, 2024 e 2025. Toda emenda que pegávamos era colocada junto com o dinheiro do Distrito Junino. O recurso era dividido igualmente entre todas as quadrilhas.”
Segundo Tatu, o modelo funcionou bem até 2025, com cada entidade realizando etapas e pagando cachês artísticos de R$ 6 mil. Porém, em 2026, não houve chamamento público nem qualquer indício de realização do Distrito Junino.
> “Não vai ter São João em Brasília. As outras duas entidades (Federação e Liga) pegaram recurso federal e se organizaram. Já a União Junina, com 24 grupos, não tem recurso federal. Dependíamos do recurso do GDF, mas o GDF não vai fazer. Como ficam 24 grupos de quadrilhas juninas que já gastaram, já estão devendo costureiras? Quase 2 mil jovens vão ficar sem o São João. É uma sacanagem, cara.”
Impactos econômicos e sociais
Em 2025, o Distrito Junino movimentou mais de R$ 10 milhões, gerou cerca de seis mil postos de trabalho (diretos e indiretos) e envolveu 63 quadrilhas em 41 dias de programação. Agora, dezenas de grupos da União Junina relatam prejuízos diretos com figurinos, adereços e estrutura já produzidos.
Além da perda econômica para costureiras, bordadeiras, aderecistas, músicos, produtores e comerciantes de comidas típicas, o cancelamento afeta profundamente a inclusão social. As quadrilhas são reconhecidas por afastar crianças e jovens da vulnerabilidade, promovendo disciplina e convívio comunitário.
O que diz o decreto de 2021
O Decreto Distrital nº 42.315, de 20 de julho de 2021, instituiu a Política Cultural Distrito Junino, reconhecendo os festejos como patrimônio cultural e instrumento de transformação social. A norma determina que a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) coordene, organize e fomente o evento. A partir de 2023, essa política se consolidou como principal fonte de recursos, substituindo as antigas emendas parlamentares.
A ausência do evento em 2026 levanta questionamentos sobre o cumprimento dessa política pública já regulamentada.
Responsabilidades
Como titular da Secec até recentemente, Cláudio Abrantes foi o responsável pela execução da política nos anos de maior investimento (2023-2025). Foi durante sua gestão que as quadrilhas se tornaram dependentes do financiamento estatal via Distrito Junino. Sua exoneração para disputar as eleições ocorreu sem que houvesse garantia de continuidade do evento em 2026.
À governadora Celina Leão cabe a definição das prioridades orçamentárias e a determinação final sobre a alocação de recursos. A União Junina cobra posicionamento e providências da governadora para reverter a situação.
Hamilton Tatu anunciou que o movimento prepara um grande manifesto para a próxima segunda-feira, que pode ocorrer em frente à Câmara Legislativa, ao Palácio do Buriti ou à Secretaria de Cultura.
“Não podemos ficar sem as nossas etapas”, afirma o líder junino.
A União Junina reforça que “a cultura popular resiste, mas não aceitará o silêncio, o abandono e o descaso”.



