A técnica de enfermagem que denunciou à polícia ter sido agredida pelo senador Magno Malta rompeu o silêncio e disse, em entrevista exclusiva ao Metrópoles, que não conhecia o político. Ela declarou ter ficado abalada com a repercussão do caso: “Me sinto um lixo, sem importância alguma”.
“Eu não sabia que ele era senador, entendo pouco de política. Eu não conhecia ele”, afirmou a jovem, que pediu para não ser identificada por medo de retaliação.
A técnica explicou, ainda, que o protocolo do Hospital DFStar, onde teria ocorrido a agressão, prevê que pacientes com perfil público tenham um concierge, mas Magno Malta estava apenas com uma acompanhante.
A profissional disse que Malta já chegou com o acesso na veia para realização do exame de angiotomografia de tórax e coronariana, em 30 de abril.
A técnica relatou que recepcionou o paciente e o colocou no aparelho de tomografia. Foi identificada uma “oclusão” e ela verificou que houve extravasamento (saída de líquido injetável da veia para os tecidos da pele). Segundo a profissional, ela disse ao senador que precisaria fazer a compressão, momento em que teria recebido o tapa no rosto.
“Ele levantou do aparelho já me desferindo um tapa. Eu não concluí o atendimento dele. Ele saiu da maca na altura que estava para o exame. Não deixou ninguém descer. Ele estava gritando, me chamando de imunda, de incompetente e saiu. Eu saí da sala e não acompanhei o resto”, afirmou. O Boletim de Ocorrência foi registrado pelo próprio hospital, conforme o relato da jovem.
A técnica de enfermagem contou que um colega de trabalho presenciou a agressão. Segundo ela, o rapaz confirmou, logo após o ocorrido, que viu o tapa, mas mudou a versão na delegacia. A técnica enfatiza que há provas da agressão. “Prova tem. Só não é mostrada”, disse.
Imagens
A defesa da jovem requereu à 1ª Delegacia de Policia (Asa Sul), em 4 de maio, os registros audiovisuais produzidos pelo sistema de monitoramento interno do Hospital DFStar, como câmeras de segurança, sistemas de gravação do setor de tomografia, imagens das áreas de circulação interna, corredores e sala de exame.
O advogado Newton Carlos Moura Viana declarou que o conteúdo constitui “prova de natureza irrepetível e de valor probatório fundamental para o esclarecimento dos fatos, podendo, contudo, ser sobrescritas, adulteradas ou extraviadas em razão do decurso do tempo ou de ação deliberada”. A defesa disse que não teve resposta sobre o pedido.
Na semana passada, a delegacia concluiu o inquérito e decidiu pelo não indiciamento do senador, por falta de provas. A reportagem questionou a polícia se foram requisitadas as imagens das câmeras de segurança antes da conclusão do inquérito e perguntou ao hospital se as gravações foram cedidas, mas não obteve retorno até a publicação do texto.
A jovem ficou afastada do trabalho nos primeiros dias após o episódio, por orientação médica, e agora está de férias. Ela relatou que a situação a abalou psicologicamente e que não tem conseguido mais realizar as atividades diárias. “Não tenho mais o sorriso que eu tinha antes, não tenho mais vontade de levantar”, disse.
A profissional trabalha há sete anos como técnica de enfermagem, mas disse não saber agora se continuará na profissão. “O meu sonho é ser enfermeira. Eu acho que esse sonho acabou. Depois disso, não penso em seguir. Imagina eu estar atendendo paciente, e ele falar: ‘Ei, quer um tapa?’ Isso machuca. A minha filha de 7 anos disse que viu comentário que tá escrito que: ‘A senhora é incompetente’”.
Entenda
Após a conclusão do inquérito pela 1ª Delegacia de Policia, o caso agora será analisado pelo Ministério Público, que pode requisitar o arquivamento, solicitar mais diligências ou denunciar o senador por lesão corporal.
O advogado da técnica de enfermagem disse que a defesa ainda deve ingressar com uma queixa-crime contra Magno Malta por injúria em razão das declarações de que a profissional era “imunda” e “incompetente”. “Quando ele diz isso, ele atinge a honra da técnica de enfermagem que está no seu ambiente de trabalho”, explicou Newton Viana.
“Evidentemente que, se não tiver representação do Ministério Público com relação à agressão física, à de injúria com certeza o senador vai responder porque nós vamos apresentar a queixa-crime”, afirmou.
O que diz o senador
Nas redes sociais, o senador negou as agressões. “Vocês me conhecem. Eu nunca encostei a mão em ninguém, nem nas minhas filhas, nem em nenhuma mulher. Isso é falsa comunicação de crime”, disse.
O parlamentar também se pronunciou por meio de equipe jurídica, que emitiu nota. No documento, a defesa diz que Malta encontrava-se sob forte medicação, com a cognição comprometida. Nesse contexto, teria reagido ao sofrimento físico – e não à profissional –, acionando imediatamente o médico responsável por seu acompanhamento.







